29 março 2014

Resenha | Diário do Farol, João Ubaldo Ribeiro


Sinopse: Diário do farol é o relato autoral de um clérigo amoral e inescrupuloso, que no outono da sua existência resolve inventariar seu rosário de maldades, perpetradas com requintes extremos desde a infância no seminário - de início, sob o pretexto de vingar os maus-tratos do pai; posteriormente, ainda mais sofisticadas, devido ao desprezo de uma mulher.
Auto-exilado numa ilha onde pontifica um farol, o bilioso e mesquinho padre dialoga com o leitor para provocá-lo com uma realidade na qual não há bem ou mal, e assim tentar demovê-lo de qualquer noção redentora. Conseguirá? Para ele, não há transcendência, o Universo nos é indiferente e a todos foi negada essa Revelação. Não por acaso, o farol de sua ilha chama-se Lúcifer, ´aquele que detém a Luz´.
O leitor é advertido desde a epígrafe: ´Não se deve confiar em ninguém´. A vida real é feita de rupturas, exceto para aquela maioria dos homens que perde a oportunidade de viver de fato por nunca romper com nada realmente importante, adverte-se. Num testemunho insidioso, que concilia situações hilariantes com outras de horror repulsivo e escatológico, somente o cinismo impera. Nisso, põe-se o padre a fazer troça dos ´católicos que acreditam nas besteiras do catolicismo´ e a manipular todos, fiéis ou descrentes, para atingir seus fins amorais, chegando à sofisticação de submeter-se voluntariamente a sessões de tortura para dar vazão a seus caprichos vingativos.
Um mal que - posto em tom neutro como só é possível por meio de uma arte superior como a literatura - nos permeia a todos e nos leva a refletir sobre nossa condição social e humana. Um mal na sua essência, que nada tem de panfletário e denunciador, que encontra solo fértil na sociedade e no sistema político atuais.


Diário do Farol

Autor: João Ubaldo Ribeiro
Editora:
Páginas: 
Tipo: Livro


Resenha

Avassalador e inenarrável são as palavras que descrevem o Diário do Farol. Foi meu primeiro livro cujo personagem sociopata me fez redescobrir o meu verdadeiro gosto literário.

 Pertencente a um velho homem, absorto em um farol numa ilha deserta que decide confessar seus pecados neste diário pessoal, relatando fatos estarrecedores e de veracidade questionável apesar das inúmeras afirmações do narrador de não ter motivos para mentir. Um homem que oculta-se atrás de uma imagem religiosa para cometer as atrocidades pragmáticas e esconder seu monstro interior.

 Este personagem anti-herói sem nome mostra-se a principio o típico vilão que estamos acostumados: Maltratado pelo pai, mãe assassinada, madrasta/tia impiedosa, meio irmão idolatrado, movido pelo sentimento de mágoa e rejeição difere sua raiva para o momento oportuno de sua vida e para todos que achar merecer realizando sua vingança pessoal.

 Como todo diário, é narrado em primeira pessoa o que sempre nos dá a sensação de participação e cumplicidade, visualizando cada cenário contado pelo personagem que nos mantém em sentimentos alternáveis entre piedade e repulsão indecisos ao desejar a vida ou a morte do mesmo.

 Conheci a obra na biblioteca do meu antigo colégio onde cursei o ensino médio e logo me apaixonei, quase cometi um pequeno delito tamanha cegueira a paixão causou. O peguei emprestado em média três vezes e ainda consegui passar as férias de verão com ele em mãos já que não mudaria de colégio cuja confiança eu conquistei das bibliotecárias. Foi meu primeiro contato com o autor e logo me deparei com o personagem malevolente, vingativo e metódico.

 Não gosto de fazer resenha dos meus livros favoritos porque tenho a vã ilusão egoísta de que pertencem a mim e quem quiser ler terá que descobri emoção por emoção assim como fiz. Depois de uma caçada louca consegui um exemplar numa troca pelo Skoob e hoje faz parte da minha coleção além de ser um dos que releio com frequência.

 Contudo, é essencial lembrar que - assim como todo diário - enxergamos os acontecimentos como o próprio narrador deseja e como apenas ele ver permitindo-nos questionar. O personagem é vaidoso, impiedoso e psicopata  que exilado em seus próprios devaneios chega a vislumbrar a imagem de sua falecida mãe. É sem dúvida uma narrativa intensa, sem pudor ortográfico e marcante.


Beijos, Milla Almeida.


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